Etéreo
As ondas rebentavam no mar alto. No bote adormecido, no vaivém das águas angustiadas, abraçavam-se os dois amantes. Náufragos abandonados ao destino, há já duas noites, esperavam. Apenas agarrados à paixão que conservavam um pelo outro. Já não pronunciavam qualquer palavra. Apenas surgia no ar um olhar de ambos que em ambos penetrava e apaziguava o sofrimento do momento. Jamais o sentimento chamado Amor teve um monumento tão autêntico a si dedicado. Ela quis, a certa altura, desistir, verter o derradeiro suspiro. – Espera, disse ele sem vociferar qualquer som. E, unidos, esperaram. Aguardaram por um final suspiro em uníssono. Como se ambas as almas em uma só se unissem e se dispersassem pelo infinito, infinitamente … Para sempre juntos. Horas depois, os corpos cadáveres alcançaram terra. A terra dos Homens. Aquela podre terra entupida de gente miserável. Pessoas que se guerreavam e se alimentavam de Mal. Mas os amantes voavam agora, por entre céus e raios de sol. Sempre e para sempre e mais próximos que nunca.
J.M.