terça-feira, novembro 28, 2006



Mário Cesariny de Vasconcelos (1923-2006)

queria de ti um país de bondade e de bruma
queria de ti o mar de uma rosa de espuma


You are Welcome to Elsinore

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

segunda-feira, novembro 20, 2006













I rather be in a Wormhole ...

Viagem sem fundo ao fim da espiral,

e o tempo, não o é,

curvas temporais fechadas abrem

os significados fechados da Vida

em aberto.

Mais uma pra Viagem ...

quarta-feira, novembro 15, 2006

Para facilitar uma Viagem ascendente em direcção ao interior de ti. De nós, e da chuva que seca os seres que passam. Ao interior da maçã azul que sonhou contigo e ao interior daquela estrada que acaba num céu meio avermelhado. Em direcção oposta. E, também, em direcção ao mar, num dia quente de noite luminosa, que escureçe o coração. Sonha. Sonha com a estrada capital. A que termina dentro de ti. De mim.


"We live together, we act on, and react to, one another; but always and in all circumstances we are by ourselves. The martyrs go hand in hand into the arena; they are crucified alone. Embraced, the lovers desperately try to fuse their insulated ecstasies into a single self-transcendence; in vain. By its very nature every embodied spirit is doomed to suffer and enjoy in solitude. Sensations, feelings, insights, fancies -- all these are private and, except through symbols and at second hand, incommunicable. We can pool information about experiences, but never experiences themselves. From family to nation, every human group is a society of island universes."
Aldous Huxley

quinta-feira, novembro 09, 2006



Se houvesse degraus na terra...

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.
Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.
Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Herberto Helder